Liberais e Conservadores sabem que compartilham um núcleo comum de valores. Por exemplo, a defesa da propriedade privada e das liberdades individuais, em contraposição ao poder ilimitado de um estado centralizador. Esses e outros valores aproximam naturalmente ambos os grupos. No entanto, Liberalismo e Conservadorismo possuem profundas diferenças, sem as quais estariam ambos reduzidos ao papel de meras correntes dentro de um mesmo sistema de ideias.

No Brasil da hegemonia da esquerda, Liberais e Conservadores estão obrigados a compartilhar – além daquele núcleo de valores comuns – uma condição marginal nas esferas cultural e política. Compartilham também o duplo esforço da talhadeira e do martelo, a abrir brechas no iceberg do domínio cultural da esquerda. Estão sendo bem sucedidos nessa tarefa, diga-se de passagem. Mas é natural que tamanha aproximação entre elementos que são distintos gere reações e conflitos, e é sobre isso que quero comentar.

Tenho ouvido, tanto de Liberais como de Conservadores, um discurso de um necessário “pacto de não agressão”. Repete-se que as discussões entre Liberais e Conservadores são perda de tempo, desperdício de energia e atitudes contraproducentes diante do perigo que se apresenta no espectro político do país. Dizem que esse expediente deixa a avenida livre para a esquerda, que ri alto dos nossos desentendimentos. Eu discordo totalmente desse discurso, e acho que a questão está mal colocada.

Não só é aceitável como é necessário que haja confrontos entre Liberais e Conservadores. Que existem discussões improdutivas, disso não há dúvida. Mas até discussões que não contribuem para objetivos globais podem realizar grandes feitos no âmbito local. Um deles é a formação de correntes dentro de um movimento político. Essa é uma condição necessária para o surgimento de diferentes lideranças. E essas, por sua vez, são determinantes na formação de uma militância organizada.

O embate, por exemplo, entre Conservadores fortemente ligados a grupos religiosos e Liberais ateus e agnósticos pode produzir diversos resultados importantes. De imediato, o debate entre esses grupos força ambos a se aprofundarem no domínio dos valores e ideias que defendem. Dois resultados, ambos benéficos, podem ser esperados. Em havendo convergência, cristalizam-se os valores comuns. Na divergência, segue-se a cristalização de correntes independentes e os efeitos relatados acima. Temos então a formação de interlocutores, capazes de comunicar ideias globais do movimento a grupos pontuais. Um comunicador capaz de motivar e mobilizar com igual sucesso grupos divergentes é muito raro. Quase sempre é desastroso quando se tenta transmitir ideias fora da experiência do seu grupo interlocutor.

No entanto, grupos pontuais e isolados em nada podem contribuir para a formação de uma oposição consistente ao establishment esquerdista, e este é o estado atual. Logo, o problema não está propriamente nos confrontos entre Liberais e Conservadores, mas na ausência de fatores aglutinantes, positivos e claros, em torno dos quais ambos os grupos estejam sempre em órbita. O que une hoje os incipientes movimentos Liberal e Conservador no Brasil é uma reação instintiva de defesa mútua e sobrevivência, e nenhum movimento sério e duradouro pode ser construído sobre essa base.

Portanto, na minha opinião, Liberais e Conservadores devem se debruçar sobre essa questão: como criar fatores positivos, capazes de aglutinar e direcionar seus esforços conjuntos. Eu tenho algumas ideias sobre como isso pode ser feito, mas todas passam pela REALIZAÇÃO DE UM CONGRESSO DE ÂMBITO NACIONAL QUE REÚNA LIBERAIS E CONSERVADORES. Um espaço para que Liberais e Conservadores possam tratar até de suas divergências mais periféricas, mas que permita que, da porta de casa para fora, falem a mesma língua e ajam com organização e coerência.

Colocar num mesmo congresso os principais representantes dos pensamentos Conservador e Liberal brasileiro, bem como os seus simpatizantes mais isolados, seria um importante passo na construção de uma oposição contundente no âmbito cultural e político. Os primeiros passos no campo intelectual já foram dados, e percebo que as coisas estão lentamente caminhando nessa direção. Espero que tenhamos tempo hábil para que isso se realize.