Boas maneiras são a combinação de inteligência, educação, gosto e estilo misturados de tal modo que você não precisa de nenhum deles.

– P. J. O’Rourke

Nesses tempos coletivistas, muito se ouve falar sobre as responsabilidades da sociedade, injustiças sociais, vítimas da sociedade, etc. Em seguida se fala sobre como construir um mundo melhor, uma sociedade justa. Sociedade é um conjunto de pessoas. As interações entre essas pessoas formam o tecido social, ou seja, conectam-nas fazendo com que toda uma população esteja interligada de um modo ou de outro. E existe um núcleo de costumes comuns a todas elas, que gera uma sensação de identidade além de garantir alguma forma mínima de entendimento, como a língua, comprimentos, gestos de saudação.

Por este raciocínio, que é a base da obra de Mises, por exemplo, são as ações dos indivíduos que movem a sociedade, e não o contrário. Pessoas têm vontades e gostos, muitas vezes, completamente arbitrários. Imaginam e sonham coisas diferentes. Agem de modo distinto. Estes sentimentos diversos levam-nas a direções diferentes, ainda que dentro dos costumes centrais da sociedade vigente. Se assim não for, o indivíduo acaba isolado desta sociedade e termina por não contribuir com ela. Mas é justamente esta diversidade de vontades, não de cultura, que enriquece um povo, através do uso liberal da criatividade e da inteligência.

Sobre a diversidade cultural, T. S. Elliot, no seu magnífico ‘Notes towards the definition of culture’, bem expõe que a convivência entre culturas distintas é estritamente necessária para a evolução das sociedades pois o contato com valores conhecidos por outra cultura leva à assimilação desses conceitos pelos indivíduos. Entretanto, o que se chama de ‘multiculturalismo,’ no jargão atual, apenas dilui uma cultura em outra, gerando um resultado turvo e mal definido, que acaba por tornar ambas as sociedades instáveis.

Voltando à participação do indivíduo numa sociedade, o convívio de milhares, ou milhões, de pessoas num espaço comum, como uma cidade, só pode ser possível se as relações interpessoais forem saudáveis. Que pessoas não se agridam aleatoriamente, por exemplo. Trata-se de boas maneiras, posto de maneira simplificada. Mas não há meio de se impor boas maneiras por leis e decretos. Ou todos deixam os pedestres atravessarem na faixa só porque o código de trânsito manda?

A questão de uma sociedade saudável está, então, dependente da saúde das relações interpessoais. O que torna os relacionamentos humanos suportáveis são, até onde posso concluir agora, três: caridade, perdão e respeito. E estou me referindo ao nível mais básico dos três. Por exemplo, se alguém bate na porta do seu escritório pedindo para emprestar a impressora, você empresta. Algum amigo precisa de uma ajuda às 3 da manhã, ou faltam 20 centavos para a pessoa que está na sua frente no caixa da padaria e você intera a diferença. E quando alguém te fecha no trânsito e pede desculpas? Ou esbarra sem querer? Quando alguém recusa fechar um negócio com você, ou simplesmente não quer conversar, você respeita essa pessoa?

São essas pequenas atitudes que tornam a convivência, não só no círculo próximo, mas entre completos desconhecidos, possível. Volto a frisar que não há modo de se instituir isso por lei ou decreto. O único modo disso acontecer é através do anseio do indivíduo de lançar-se além do mundano, sobre a mera existência material. Por isso que quando me dizem que devemos construir um mundo melhor eu sempre penso que se essa pessoa deveria, antes de mais nada, conseguir reduzir a zero todos os pequenos erros e realçar completamente todas as pequenas virtudes. Se ela o fez, portanto é um santo, e aí talvez deva começar a falar sobre o assunto. Mas, se esse indivíduo é um santo, logo entende que planejar o mundo não é da sua competência.

Entretanto, como já venho defendendo há tempos, também não é através da educação formal que se inculca tal comportamento às pessoas. Confundiu-se completamente a noção de educação com a de ensino, no sentido técnico do termo. Ensino, como a alfabetização por exemplo, que é papel da escola, é completamente diferente de se formar um cidadão apto ao convívio social. Estas três noções – perdão, caridade e respeito; aprendem-se pelo exemplo, e aplicam-se pelo esforço. E só é possível que se eduque alguém, agora no sentido que defendo, se esta pessoa estiver inserida num ambiente saudável na qual ela tenha abundância destes exemplos agindo, principalmente, com relação à ela.

Portanto, antes de imaginarmos soluções mágicas para problemas graves, comecemos a sanear o nosso próprio entorno. Como? Basta termos boas maneiras.