Não só da mídia vem as informações que absorvemos. Temos que ficar de olho no nosso cotidiano, e dele tiraremos conclusões interessantes. Vou relatar aqui um que me ocorreu semana passada.

Tendo acordado tarde demais para um café da manhã e cedo demais para um almoço, resolvi ir à padaria comprar algo mais substancial que um café da manhã e menos substancial que um almoço. Então, assim que entrei, me deparei com pães de batata que pareciam tão apetitosos que tinham até um ar angelical! Vou tentar agora relatar o meu diálogo com a moça que me atendeu.

– Por favor, me vê esse pão de batata, mas um moreninho, por favor…

-Ahn? Retrucou, com cara de quem não havia entendido o meu pedido.

-Um pão de batata. Moreninho.

-Ahn!?

-Um pão de batata! (Nessa altura já tinha me conformado em não ser um moreninho).

-O que é isso???

O restante do diálogo com a explicação eu vou deixar pra lá, mas basicamente se resumiu a apontar com o dedo e dizer “é desse daqui”.

O que é importante nessa história do ponto de vista conservador?

Como uma pessoa descobre o que é um pão de batata? Basicamente, comendo um. Então alguém argumentaria que a moça não sabia do que se tratava, por ser pobre e não ter acesso. Esse argumento é fácil desmontar de diversas maneiras. Uma delas é que o tal pãozinho, numa padaria que atende um público de classe mais alta, me custou cerca de um real e cinquenta centavos. Acredito que essa quantia não deva ser empecilho para que alguém aprecie o tal pãozinho diferente, e que o preço deva ser menor em outro estabelecimento mais humilde. Poderia dar outras razões, mas vou direto ao ponto.

Meus pais tiveram origens humildes, e sessenta anos atrás quase ninguém tinha acesso a nada já pronto. Não tinha, pelo menos de modo que fosse acessível a uma parcela esmagadora da população, uma padaria que fornecesse grande variedade de produtos, ainda mais aqui no interior, em Americana/SP. Na verdade, acho que nem muita padaria tinha… no bairro que a minha mãe morava o comércio se resumia ao armazém do Manoel Farinha. Mas não importa. Minha mãe, por exemplo, chegou a passar fome na vida e teve que ir trabalhar aos 14 anos para sustentar os irmãos. Mas ela sabia o que era um pão de batata. Um bolo de cenoura. Um pão de queijo. Uma caçarola!!! Mas nesse tempo ela jamais teria dinheiro para comprar. Meu pai é mais ou menos a mesma coisa, mas embora tenha passado menos privações, também não tinha acesso financeiro a tais produtos. Só que a mãe dele cozinhava muito bem.

A culinária é uma das artes que a cultura desenvolve. Geralmente, quanto mais refinados os pratos, mais refinada a sociedade. Mais alta é a cultura de um povo que tem um amplo leque de receitas, pois assim também o é para todas as outras atividades: desenvolve-se um gosto pela coisa e se aprimora essa coisa de modo a causar um deleite mental. No caso da culinária é fácil notar como alguém que cozinha um prato cujo paladar, visual e outros atributos agradem as pessoas, imediatamente ganha um maior status naquele grupo. Não é uma honra ser o cozinheiro da turma? E o que te faz cozinhar aquele prato especial para o seu namorado(a) ou esposo(a)? As ceias de natal, páscoa, etc? Parece ser o mesmo tipo de coisa que faz um engenheiro ao projetar uma ponte, mas em escala muito menor.

Minha mãe e meu pai conheciam uma infinidade de pratos não porque tinham acesso a eles prontos e comercializados, que como já disse não tinham, mas porque esses pratos eram preparados em casa. Se você tem batatas e um pouco de farinha pode fazer um nhoque, um rocambole salgado ou simplesmente ignorar a farinha e comer as batatas cozinhas. Tem até quem faça uma salada de batatas cruas. Mas veja como essa lista que fiz vai decaindo em quantidade de processamento dos dois primeiros itens para os dois últimos. É necessário acertar as proporções de cada ingrediente, saber colocar o que em qual hora, quanto tempo assar, cozinhar. Pra fazer uma salada de batata crua basta fatiar e temperar.

Isso mostra como as atividades vêm sendo desempenhadas dentro dos lares brasileiros. A cozinha brasileira passou a ser o arroz com feijão mais alguma mistura bem simples como um ovo frito ou um bife malemá salgado. E quando tem festa basicamente o que se faz é o churrasco: apenas carne salgada e jogada sobre uma grelha com cerveja que chega “automaticamente” no ponto quando se coloca no gelo. Antigamente quando tinha um evento em família, ou entre amigos, cada um tinha que levar um prato, e todos queriam que o seu prato fosse a sensação da festa. Não que chegar despreocupado num churrasco seja ruim, mas ser sempre assim é meio complicado porque as tradições vão se perdendo.

Lembro-me que descobri o que era um pão de queijo em casa. Minha mãe que fez. Meu pai sempre fez pizza e a macarronada dele é imbatível. Dessas coisas posso deduzir que realmente o T. S. Elliot estava certo. Cultura se adquire primariamente do convívio em família. Nenhuma escola vai te ensinar o que é um pão de queijo, um pão de batata, um pudim, dentro da sala de aula. “Educação é a solução” é a falácia mais vendida dos últimos tempos. A família da moça da padaria pelo jeito já perdeu boa parte da cultura dos antepassados. E a escola dela não vai ensinar o que éumpão de batata. É triste quando até um mero pão de batata te mostra que a cultura que você e as gerações antes da sua foram criados vai indo rapidamente para o buraco. Farei questão de que meus filhos descubram, empiricamente, o que é um pão de batata.