Nestes tempos de naufrágio moral da política, repete-se pelos cantos, em nome de Platão, a frase: “O preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior“. De certa forma, a essência dessa frase também se aplica ao pensamento conservador no Brasil. Há uma escassez de pensadores na escuridão do conservadorismo brasileiro: qualquer um que se apresente como conservador, com ares de superioridade intelectual e um caximbo em brasa por entre os beiços acaba tornando-se referência nessa penumbra. Mesmo que não queira.

Luiz Felipe Pondé é doutor em filosofia pela USP, professor, pesquisador do pensamento conservador e colunista da Folha de São Paulo. Escreveu, junto com João Pereira Coutinho e Denis Rosenfield, o livro “Por que virei à direita – Três intelectuais explicam sua opção pelo conservadorismo“, publicado em 2012 (Editora Três Estrelas).

Pondé tem dedicado uma parte de seu espaço na mídia ao pensamento conservador. Em artigo publicado na Folha de São Paulo no dia 24/09/2012, “Contra os comissários da ignorância” (leia aqui), Pónde fez uma defesa do pensamento conservador, passando rapidamente por alguns autores e obras conservadoras:

 O que é conservadorismo? Tratar o pensamento político conservador (“liberal-conservative”) como boçalidade da classe média é filosofia de gente que tem medo de debater ideias e gosta de séquitos babões, e não de alunos.

[…] O pensamento conservador se caracteriza pela dúvida cética com relação às engenharias político-sociais herdeiras de Jean-Jacques Rousseau (a “ideologia da razão”).  Marx nada mais é do que o rebento mais famoso desta herança que costuma “amar a humanidade, mas detestar seu semelhante” (Burke).

Em outras oportunidades, como em seu “Pequeno ensaio sobre a devastação” na 4a. edição da revista Dicta & Contradicta de dezembro de 2009 (leia aqui) e no artigo “Conservar o que?” (leia aqui), publicado no jornal Folha de São Paulo no dia 13/10/2008, Pondé também voltou ao tema conservadorismo:

[…] 6. Duvido da possibilidade de fabricarmos novos homens pela educação, legislação ou engenharias culturais de qualquer tipo. O homem não é passível de perfectibilidade projetada e acumulativa; daí a recusa da noção de “meliorismo” por parte dos conservadores.

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[…] Conservar o quê? A dúvida para com as soluções racionais e “científicas” apressadas, e as fórmulas políticas de “gabinete”. Conservar a consciência da longa experiência humana com sua própria loucura. Isso não implica em recusar mudanças, implica sim em prudência com as ilusões de que os humanos sejam facilmente racionais, belos e bons.

Nota-se que Luiz Felipe Pondé reproduz em seus artigos alguns pontos do pensamento conservador e faz referência a alguns de seus principais autores, como Burke e Kirk, por exemplo. Portanto, Pondé parece ter lido os escritos conservadores.

No entanto, ele os compreendeu?

Em sua coluna na Folha de São Paulo, no dia 04/02/2013, Luiz Felipe Pondé publicou o artigo intitulado “Relojoeiro cego” (leia aqui). Nele, Pondé defende o darwinismo social e a eugenia.

O artigo começa com uma indagação à leitora sobre qual atitute tomar ao saber que está grávida de um bebê com síndrome de Down. Adiante, Pondé apresenta a resposta que espera receber:

No Brasil, sendo o aborto ilegal numa situação como esta, a tendência, com a chegada até nós desse tipo de exame, é o aumento do aborto ilegal.

Em seguida, compara esse bebê a uma “carta triste” no baralho de um “relojoeiro cego” (o acaso, em uma referência às idéias de Richard Dawkins). Carta esta que, segundo Pondé, pode ser descartada:

Não seria essa criança apenas uma carta triste no baralho, baralho este criado por um relojoeiro cego?

[…] Se não devemos nada a ninguém, por que não tomarmos nosso destino nas mãos e ter o “melhor filho” possível? Tomar o destino em nossas mãos é optarmos pelos ganhos técnicos à mão, ou seja, a artificialização da vida.

Pondé defende que, através da análise genética dos bebês ainda em gestação e da opção pelo aborto, possam ser selecionados e gerados “bebês ao portador, com grau máximo de saúde“. Pondé faz questão de escolher outra expressão (por que não chamar por seu devido nome, eugenia?) para sua proposta: “escolha informada“.

O processo de ampliação de escolha informada implica, num prazo de tempo não muito preciso, a crescente artificialização da atividade reprodutiva humana. Isso é tão inevitável como a ampliação dos direitos civis, tais como voto das mulheres, casamentos gays, direitos da mulher sobre seu corpo, e afins.

Pondé segue suas divagações com a descrição do seu mundo idealizado, onde um “homem aparentando 60 anos, mas com corpo e disposição de 40 corre no Ibirapuera ao lado de uma gostosa de 25“, e onde o aborto será “banal como tomar vitaminas e vacinas“.

Não nos interessa analisar o perfil psicológico de Luiz Felipe Pondé à luz de seus fetiches e delírios pessoais, mas sim suas opiniões públicas à luz do pensamento conservador, já que esse se apresenta como um adepto e defensor do conservadorismo. Nesse aspecto, o artigo de Pondé é uma agressão aos princípios conservadores, do início ao fim.

Ao defender a eugenia, Pondé destrói a estrutura social compreendida pelos conservadores, a “sociedade como uma comunidade de almas”, conforme Burke, “que reúne os mortos, os vivos e os que ainda não nasceram”: ignora as experiências catastróficas e genocídas do eugenismo no séc. XX (a sabedoria dos mortos) e coloca termo à vida dos que não nasceram, em nome de uma busca egoísta (o presente, sem passado e sem futuro), utópica e imprudente do ser humano perfeito. Não há nada menos conservador do que isso: essa é a mente de um revolucionário.

De uma só vez, Pondé conseguiu ferir os princípios da imperfectibilidade e diversidade humana, defendidos pelos conservadores; ignorou os princípios fundamentais da prescrição e da prudência diante das engenharias do mundo melhor; e subjulgou a ordem moral perene da sociedade. Não há um só princípio conservador que não tenha sido destruído neste artigo.

Se Luiz Felipe Pondé estuda ou estudou o conservadorismo e seus principais autores, fica claro que jamais assimilou os valores conservadores da maneira como Kirk indica, ou seja, como um estado de espírito (“state of mind”). Portanto não deveria, de forma alguma, figurar como referência entre os intelectuais conservadores, pois não se pode ser mestre daquilo que não se compreende em profundidade.

No entanto, o fato de Pondé se encontrar nesse patamar (referência do Conservadorismo brasileiro) é emblemático e ilustrativo: demonstra o quão frágil e débil é o pensamento conservador no Brasil. Fosse nosso país uma nação com alguma seriedade intelectual, e fosse Luiz Felipe Pondé uma carta, jamais figuraria entre as principais cartas no baralho dos intelectuais conservadores: seria, no máximo, o quatro de espadas num jogo de truco, na “manilha velha”.