O que causa maior indignação na população: a constatação de exploração sexual de crianças ou a denúncia de maus-tratos a animais? Uma busca nas seções de comentários dos portais de notícias na internet: não só os comentários são em maior número, como também são mais indignados em notícias cujo tema é maus-tratos a animais.

São Francisco de Assis proferiu sermão aos animais em diversas ocasiões. Tocando sobretudo o coração dos homens, exaltava a beleza da Criação. O apreço de São Francisco de Assis pelos animais era, antes, um ato de adoração a Deus. Ele compreendia, e conclamava cada ser, principalmente o homem, ao papel que lhe cabia na obra do Criador.

Atualmente, os papéis não parecem tão bem definidos. Ao passo em que se exalta a humanização dos animais, os próprios humanos parecem cada dia mais condicionados a responderem a estímulos, tal qual cachorros adestrados reagem a comandos de voz. São gatilhos mentais que permeiam o discurso politicamente correto, e que condicionam a reação das massas a palavras, frases e imagens.

É esse meticuloso processo que tem corroído a base moral da sociedade e dado origem a uma nova ordem comportamental. Nessa ordem, é perfeitamente aceitável compadecer-se com a condição do pobre animal e ser indiferente para com a criança sexualmente explorada; vociferar e praguejar contra quem maltratou o animal e calar em relação ao explorador da criança; é perfeitamente normal colocar os dois casos num mesmo patamar moral, ou colocar a questão animal em plena vantagem.

O intrínseco repúdio ao ser humano por parte daqueles condicionados a defenderem os direitos dos animais – acima até da dignidade humana, inclusive – não pode ser analisado isoladamente, mas sim dentro do conjunto que caracteriza o processo de subversão dos valores morais que estamos vivenciando. Essa série de novos comportamentos são típicos da mente revolucionária, que costuma “amar a humanidade mas detestar os homens” (Burke). E, como todo comportamento revolucionário, sempre culmina em bizarrice, quando não em trágédias bem piores.

Em Campinas-SP, dois grupos resolveram protestar contra a rede de escolas de idiomas CNA. Com vandalismo em placa de publicidade, cartazes ridicularizando a rede de escolas e com referência a campo de concentração nazista, além de megafone e palavras de ordem, tentam por fim à prática de um horrendo crime, salvando assim a humanidade animal (sic). Todo esse alvoroço porque uma das franquiadas da rede na cidade cede gratuitamente o estacionamento do seu estabelecimento aos domingos para uma família de criadoras, mãe e filha, que vendem ali animais de estimação. Há 7 anos a feirinha faz parte da paisagem da Lagoa do Taquaral, principal ponto de lazer da cidade, por onde passeiam milhares de pessoas todos os domingos.

O nome de um dos grupos é Organização Abolicionista pela Libertação Animal. Do outro, Vaganize-já. Este último, em sua página no facebook, ilustra perfeitamente o que eu descrevo neste artigo:

“Não vejo diferença entre exploração sexual infantil e comércio/vendas de animais de “raça”. São todas crianças, mas de especies diferentes. Os “criadores”, vendedores e compradores de animais são mais nojentos que cafetões e pedófilos. VEGANize-já.”

A consequência direta da aberração de se querer elevar os animais à condição humana não é outra senão o rebaixamento do homem a condições cada vez mais animalescas. Sempre se paga um preço alto pelos delírios revolucionários. Que São Francisco de Assis proteja todos seus irmãos, nós e os animais, de nossos piores malfeitores: os ideólogos do “mundo melhor”.